junho 08, 2007

República

Conhecemos o escritor Luiz Pacheco há precisamente quarenta e dois anos, tínhamos entrado para o trissemanário «O Setubalense», na altura dirigido por Guilherme Faria, sendo Domingos Tavares Roque o editor.

Luiz Pacheco era visita regular, pois ali tinha sido revisor e deixara frutos do seu trabalho intelectual, pois a página literária «Mosaico», dirigida por Gouveia Amaral, tinha como grandes colaboradores Carlos Tavares da Silva e António Gonçalves, nomes reconhecidos na arqueologia.

Numa dessas visitas, Luiz Pacheco, já rotulado como “Escritor Maldito”, apareceu com exemplares de um dos seus livros, «Crítica de Circunstância», que viria a ser apreendido pela PIDE, destino que outros também tiveram, mas este em particular graças à acutilância de muitos dos textos ali compilados.

A um desses textos, que quase meio século volvido, mantém viva a actualidade, Luiz Pacheco deu o título “Como se faz uma República”, onde satirizava o papel de corta fitas de Américo Tomaz, Craveiro Lopes e Carmona.

Lê-se no «Crítica de Circunstância», a propósito da visita do Presidente da República a uma qualquer povoação, que se abrem buracos no chão onde se implantam os postes de madeira, para colocar os pendões e vistões. No dia da visita da alto magistrado, lá estão os representantes locais e na primeira fila da assistência as criancinhas da escola, de bata branca, com uma bandeirinha na mão a gritarem: “Viva o senhor Presidente!”.

Hoje as coisas não são muito diferentes e isso demonstra a actualidade dos textos do “Escritor Maldito”.

O que temos visto nestes dias que antecedem as comemorações do 10 de Junho no concelho de Setúbal, trouxe-nos à memória aquele livro que Luiz Pacheco nos vendeu em 1965 - na altura por vinte escudos o equivalente à remuneração de um dia de trabalho – pois os serviços camarários se apressam a tapar tudo o que é buraco no asfalto ou nos passeios e a pintar tudo o que seja muro ou parede até ali com aspecto mais descuidado, com esmero especial nas ruas e avenidas por onde irá passar o Presidente da República.

Na Avenida Jaime Rebelo, vulgarmente conhecida por Beira Mar, tudo mereceu atenção especial, com obras de vulto no velho armazém do cais 3, das Fontainhas, com o arrancar dos pilaretes que nas urbes têm por missão impedir que as viaturas automóveis invadam as calçadas e até com o “extrair” de um poste de iluminação pública, porque este perturbaria o decorrer da cerimónia militar.

Neste local – Praça da República – o apronto do recinto obrigou a que fosse arrancada cerca de uma dezena de árvores (embora com a promessa de que irão ser replantadas) logo que terminado o aparato militar, isto é, pelo menos duas semanas mais tarde.

Resta-nos aguardar se depois tudo volta a ser colocado como estava, ou então teremos de dar razão a Luiz Pacheco que nos dizia que “depois da cerimónia, arrancam-se os postes, guardam-se as bandeiras, mas os buracos ficam lá.

Jorge Santos
In semanário «Primeira Página»

Publicado por dizerbem em junho 8, 2007 12:26 AM | TrackBack
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